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Marketing·03 de outubro de 2026

A propaganda escolheu pra você

Gabriel Logan

Gabriel Logan

Fundador da Allen

Capa do artigo A propaganda escolheu pra você

Cara, pensa na última coisa que você pegou numa loja de conveniência. Aquela de impulso. Se eu te perguntar por que foi aquela marca e não a do lado, você vai me dar um motivo. E esse motivo foi inventado na hora, depois que a sua mão já tinha "escolhido".

E olha, meu amigo, isso me intriga até hoje. A sensação de ter escolhido é absoluta. Só que a maior parte do seu cérebro é dominada por processo automático. Boa parte do que acontece ali é emocional e não cognitivo. E pesquisando a fundo, eu percebi que essa vontade sai de uma região do cérebro chamada nucleus accumbens, o ponto de desejo, e ela aparece antes de você pensar. Agora pensa no volume de publicidade que te atinge num dia só. Como é que alguém espera que você lembre de alguma parte disso? Você não lembra. E é por isso que funciona.

Martin Lindstrom fala bastante sobre isso no livro A Lógica do Consumo... mas trazendo uma analogia pros dias atuais, eu vejo semelhança com uma coisa que se propagou no Brasil: o cassino.

Quando eu fui entender como um cassino é desenhado, a ficha caiu. Ele é construído pra você querer ficar e pra você perder dinheiro, as duas coisas ao mesmo tempo. Estímulo chegando no seu cérebro sem parar, e aquela sensação de QUASE ter conseguido que te põe de volta na cadeira.

Georges de La Tour, O Trapaceiro com o Ás de Ouros. Numa mesa de jogo, o rapaz rico à direita está prestes a ser depenado e não faz ideia.

Georges de La Tour, "O Trapaceiro com o Ás de Ouros" (c. 1636), Louvre. Todo mundo na mesa sabe o que está acontecendo, menos quem vai pagar a conta.

Eu estudo e trabalho com propaganda há mais de 10 anos, e posso afirmar que boa parte dela é projetada do mesmo jeito.

E tem uma coisa que eu aprendi vendendo.

Uma negociação boa termina com o comprador saindo com a sensação de que ELE venceu. A pessoa precisa sair com sensação de recompensa, de vantagem, de que foi ela quem conduziu a conversa. Quando isso acontece, ela fecha e depois ainda defende o acordo, pros outros e pra ela mesma.

Foi quando eu juntei as duas coisas que eu me incomodei de verdade... a propaganda faz isso todo dia, com todo mundo, e faz melhor que qualquer vendedor.

A propaganda te entrega a sensação de que você escolheu, e essa sensação é o produto. Você sai da loja achando que foi o BAM BAM BAM por ter ESCOLHIDO aquela marca.

E eu não estou de fora disso. Sou usuário de Apple, uso o computador, o celular, os serviços. Sei que existe aparelho melhor e mais barato, e continuo comprando Apple.

Caravaggio, Narciso. Um jovem hipnotizado pela própria imagem refletida na água.

Caravaggio, "Narciso" (1597-1599). A gente não se apaixona pelo produto. Se apaixona pela imagem de quem a gente vira comprando ele.

A redpill aqui não é parar de comprar, isso não existe. É comprar sabendo que não foi você que escolheu.

Se você separa um dia pra comprar um tênis de corrida. Na hora de fechar, o site te oferecem um cupom de R$ 15 pra usar agora, ou R$ 20 se você esperar até a semana que vem. Eu te garanto que você usa o de R$ 15. A possibilidade de ganhar ali, naquele segundo, dispara estímulo nas áreas límbicas do seu cérebro. E é claro... a sua mente racional sabe que R$ 20 é LOGICAMENTE o negócio mas vantajoso, mas — Imagine só — as emoções venceram.